Capítulo 46

Outra batalha ia iniciar-se, Nuno diriga-se para Lúcia, enquanto Carla apenas sorria ao ver tantos guerreiros prontos para a enfrentar.

 

«Tanta atenção que me dais.» disse Carla rindo. «Lúcia ficará com cíumes. Serei assim tão perigosa?»

 

«Há algo familiar em Carla.» disse Rita.

 

«Sim.» disse João. «Não sei o quê, mas há algo de familiar nela.»

 

«É como se parte de mim a reconhecesse.» disse Solange.

 

«É como se parte de mim lhe pertencesse.» disse Pedro.

 

«E pertence.» disse Evolus. «Carla é filha de Gaia, a primeira que deu origem aos elementais.»

 

«Evolus?» perguntou Carla. «Não pode ser. Só podeis estar vivo quando uma vontade vos comanda.»

 

«Assim é.» disse Evolus. «Uma nova vontade me anima e tudo farei para a honrar.»

 

«Não esperava enfrentar um dos primeiros.» disse Carla. «Mas também devo honrar o meu propósito.»

 

Nuno por seu lado estava diante de Lúcia...

 

«Sois muito corajoso ou buscais a morte ao virdes enfrentar-me sozinho.» disse Lúcia.

 

«Não sou corajoso, nem busco a morte.» disse Nuno resoluto. «Procuro apenas por vós.»

 

«Haveis-me encontrado.» disse Lúcia. «Apreciai vossos últimos momentos.»

 

Lúcia lançou um relampago em direção a Nuno que se desviou facilmente.

 

«Sois mais do que aparentais.» disse Lúcia.

 

«E vós menos.» disse Nuno. «Esta farsa de guardiã pode enganar outros, mas não penseis que em engana.»

 

«Quem sois vós?» perguntou Lúcia.

 

«Não me reconheceis?» perguntou Nuno. «Já passou muito tempo, mas pensei que reconheceríeis vosso irmão.»

 

«Não pode ser!» exclamou Lúcia. «Não pode ter passado tanto tempo.»

 

«Quando estais fechada dentro de um cilindro da morte o tempo não tem significado.» disse Nuno.

 

«Mas o meu propósito mantem-se.» disse Lúcia.

 

«Também esperava isso.» disse Nuno. «Por isso pedi para vos enfrentar sozinho.»

 

«Um último duelo.» disse Lúcia tristemente. «Os últimos Thorian enfrentando-se até ao fim.»

 

«Que assim seja irmã.» disse Nuno.

 

Os dois Thorian enfrentavam-se, à sua volta uma aura elétrica formava-se a partir das suas forças vitais. Quem destruísse a força vital do adversário venceria. Assim tinha sido por milénios entre eles.

Os dois trocavam golpes e contra golpes, relampagos que se cruzavam e embatiam entre si, comandados pela mente de seus amos. A intensidade aumentava enquanto mais e mais força era usada nos ataques.

Nuno usava a sua agilidade para fugir aos ataques de Lúcia, enquanto esta usava a sua maior experiênciade combate para se defender dos ataques de Nuno.

 

«Precisais de praticar mais Nuno.» disse Lúcia. «Vossos ataques apenas vos fazem ficar mais fraco.»

 

«E mais perto.» disse Nuno. «Aprendi coisas sozinho que nunca haveis sonhado.»

 

Nuno agarrou o pulso de Lúcia e começou a descarregar toda a sua energia na sua irmã.

 

«Que fazeis?» perguntou Lúcia. «Porque me dais vossa energia?»

 

«Limites.» disse Nuno. «Conheceis os vossos?»

 

A transferência continuou enquanto Lúcia se sentia cada vez mais forte, mas algo estava a mudar, o seu corpo estava cheio de energia e prestes a implodir.

 

«Nuno parai!!!» gritou Lúcia. «O meu corpo não aguenta mais energia.»

 

«Adeus irmã.» disse Nuno exausto. «Gostei de vos ver novamente.»

 

«Nuno!!!!!» gritou Lúcia enquanto o seu corpo se fundia á aura elétrica e se difundia no infinito.

 

A aura à volta de Nuno desapareceu e ele caíu de joelhos antes de se precipitar para a frente e cair de face na poeira.

 

«Betinha, ide ver de Nuno.» disse David.

 

Betinha correu até Nuno.

 

«Está vivo!» exclamou Betinha. «Exausto mas vivo.»

 

«Muito bem.» disse David. «Falta-nos enfrentar uma guardiã.»

 

«E não será fácil.» disse Evolus. «Carla comanda os elementos tal como os nossos elementais, mas pode ser todos ao mesmo tempo.»

 

«Como assim?» perguntou Vânia.

 

«Qualquer parte de seu corpo pode tornar-se um elemento e ser usada para atacar ou defender.» disse Evolus.

 

«Então atacaremos juntos.» disse João. «Cada elemental atacará a parte de Carla de seu elemento.»

 

Os quatro elementais atacaram Carla de imediato, mas esta aguentava os seus ataques sem demonstrar sinais de fraqueza. Os ataques à distância eram rechaçados facilmente e mesmo os olhos de Rute não surtiam efeito sobre a forma elemental de Carla.

 

«Não parece haver maneira de a derrotar.» disse Ana Raquel.

 

«Não lhe podemos dar tempo para se preparar.» disse Carmen. «Temos de fazer algo de tal maneira fora do normal que a surpreendamos.»

 

«Um novo ataque!» exclamou João.

 

Todos se lançaram como anteriormente, mas algo de novo se começava a formar. Rita e Paula estavam a atacar juntas. Rita assumiu uma forma de onda onde Paula mergulhou e assumiu a sua forma de sereia. Pedro puxou todas as suas forças criando labaredas enormes quase fora de controlo enquanto se dirigia para Carla. Os dois elementais aproximavam-se e Carla preparava a sua defesa, um braço de água e outro de chamas para cancelar os ataques de seus adversários com o seu próprio elemento. Mas o ataque foi difrente Rita desviou-se e atacou o braço em chamas enquanto Pedro atacava o braço de água. Paula havia entrado num transe e evoluía para a forma final das sereias, o seu corpo ficara coberto de escamas, as suas unhas tornaram-se garras, os seus cabelos fundiram-se numa vela, a sua face tornou-se como uma de um tubarão e seus dentes também.

Rita atingiu em cheio o braço em chamas e evaporou-se deixando o braço vulnerável ao ataque de Paula que o arracou à dentada.

Carla ainda estava atordoada quando Pedro se lançou sobre o braço de água apagando-se as labaredas e mostrando que André estava escondido atrás delas e o seu machado decepou o outro braço.

Carla estava vulnerável mas não derrotada.

 

«Rápido!» exclamou Evolus. «Antes que se regenere.»

 

Mira atirou uma poção para o ar e o seu vapor venenoso impedia Carla de se transformar em vento pois seria envenenada, enquanto isso Ganopa, Fábio e Raquel carregavam sobre ela e sabia que as suas armas destruiríam o seu corpo de pedra. A sua única saída seria reverter à sua forma humana e surpreender os seus adversários até poder regenerar-se.

Carla assim fez conseguindo escapar do vapor venenoso e das armas que desciam na sua direção, mas não pode escapar de Claudino.

 

«Não gosto de matar mulheres bonitas, mas farei uma exceção.» disse Claudino enquanto punha as suas mandíbulas à volta do pescoço de Carla.

 

Claudino estraçalhou Carla com uma ferocidade que fez muitos do grupo olhar para longe. Carla começou a brilhar.

 

«Não!» gritou Claudina removendo magicamente Claudino de Carla. «Não pude salvar Lisa, mas não permitirei que nenhum de nós sofra o mesmo destino se o puder evitar.»

 

As duas guardiãs estavam derrotadas.

 

«Como estamos?» perguntou Cristina.

 

«Rita!» exclamou Paula. «Por favor respondei.»

 

«Estou no fim do meu tempo.» disse Rita sorrindo tristemente. «Em breve irei desaparecer.»

 

«Não!» disse Paula.

 

«Foi uma decisão minha.» disse Rita. «Quero deixar-vos uma última coisa. As últimas gotas de água da vida.»

 

«Não posso aceitar.» disse Paula.

 

«Não podeis recusar.» disse Rita chovendo sobre ela. «Proteger-vos-ei sempre amiga.»

 

«Rita.» disse Paula chorando. «Adeus minha amiga.»

 

A pequena núvem de vapor desvaneceu-se e Rita partiu.

 

«Como está Pedro?» perguntou André.

 

«Prestes a fazer o mesmo que Rita.» disse Pedro com um sorriso forçado no rosto e com o corpo já quase cinzas. «Mas o meu papel ainda não terminou. Cristina dai-me vossa aljava.»

 

Com lágrimas nos olhos Cristina entregou a aljava a seu companheiro caído.

 

«A minha última fagulha.» disse Pedro sorrindo. «Irá acompanhar-vos e proteger-vos meus amigos.»

 

O corpo de Pedro tornou-se então apenas cinzas...

 

Todo o grupo estava em silêncio e triste pelo desaparecimento de mais dois dos seus membros.