Capítulo 1

 

É engraçado como é agora, já na minha velhice, que me sento a uma mesa com papel, pena e tinta e me ponho a escrever sobre os acontecimentos da minha juventude. Como é engraçada a memória, perdi lembranças de familiares e amigos, aniversários e outras festas e tristezas, mas não consigo esquecer as coisas que vivi, as pessoas que conheci e os acontecimentos que moldaram para sempre o mundo que hoje chamo de lar.

 

Mas é melhor começar pelo início de tudo. Começar pelo jogo do destino. Este jogo começou á milénios quando o mundo foi criado e as forças primevas entraram em guerra quase destruindo tudo. Foi então que surgiu o Nexus, uma personificação do equilíbrio e com ele surgiu o jogo do destino. Um jogo de cartas onde cada carta representa um herói, uma raça, um aliado dessa força primeva. O objectivo desse jogo era o equilíbrio de forças impedindo a destruição de toda a criação.

De um lado as forças da Luz e da Vida, do outro as das Trevas e da Morte. Todos juntos formando as forças da Ordem e do Caos. A vitória de um dos lados significaria a destruição de tudo. Se a Ordem vencesse o mundo estagnaria na perfeita ordem onde nada aconteceria, por outro lado, se o Caos vencesse nada seria absoluto com a destruição e a recriação a acontecerem a todo o momento num ciclo sem fim e sem padrão, onde nada seria tudo e tudo seria nada.

 

Isto foi no início dos tempos, quando os deuses eram jovens, Rashagall a senhora da Luz e sua irmã Artanis senhora da Vida e os seus antagonistas Zerathull senhor das Trevas e seu irmão Tassadar senhor da Morte.

Para combater por eles os deuses criaram as raças do mundo, deram-lhes poder, algo em que acreditar e sem que estes se apercebessem guiavam-nos a guerras sangrentas entre os diversos povos.

E assim continuou o mundo durante milénios, com períodos de paz seguidos de guerras sangrentas e selvagens.

Mas finalmente chegou o dia em que tudo mudaria. Inicialmente Zerathull era o atacante lançando os seus demónios e espécies afins para atacar os povos da Luz. Mas depois de milénios Rashagall estava cansada e decidida a terminar o jogo de uma vez por todas, algo que nem o impulsivo e conquistador Zerathull nunca sequer tinha imaginado fazer alguma vez.

 

Num momento o mundo estava em paz e de repente os Anjos e Arcanjos e todos os exércitos mais fortes da Luz arrasaram quase por completo os seus aliados, criando um pânico desenfreado por todos os povos. Oráculos choravam a queda de cidades e povos pelas criaturas celestiais que sempre os tinham protegido.

 

E assim começa a história que mudou, não só a minha vida, como a de tantos outros neste mundo. Embora deva salientar que não me envolvi logo nela, essa dúbia honra coube a outros.

 

Na ilha de Balad Naran, ponto que divide o mundo ao meio entre as raças do Oeste e do Leste, encontrava-se o jovem que iria iniciar a mudança. O príncipe David, filho do rei e comandante dos seus exércitos era um dos mais conhecidos e respeitados defensores das terras do Leste. Embora não fosse dos mais altos do seu povo, era um exemplo de nobreza e amor pelo seu povo, aguerrido no campo de batalha e misericordioso para com o inimigo derrotado. Isso tinha-lhe ganho o respeito, não só dos seus aliados, como dos seus inimigos. Era também o herói por quem Artanis nutria maior afecto e usava-o frequentemente como líder nas suas batalhas. Não foi por isso grande surpresa para ele ser contactado pela sua deusa.

 

David encontrava-se no templo de Artanis, como lá tinha chegado ou a razão de lá estar eram-lhe completamente desconhecidas. No altar onde normalmente encontraria Lígia a fazer as suas oblações estava uma mulher feita de luz.

 

«Bem vindo David da casa de Balad Naran» - disse a mulher de luz com uma voz que lembrava a Primavera , a estação da Vida.

 

«Senhora, vosso servo está aqui para servir-vos.» - disse David caindo sobre um joelho em reverência.

 

«Meu jovem herói.» disse Artanis sorrindo. «Venho dar-vos uma missão muito perigosa. Uma missão que poderá ir contra todas as vossas crenças.»

 

«Senhora?» indagou David surpreso.

 

«Duas outras entidades querem falar-vos.» disse Artanis

 

E sem aviso o mundo mudou e o templo estava coberto de trevas e um sentimento de medo e tristeza invadiam David.

 

«Filho de Bald Naran.» disse uma voz negra e fria vinda das trevas. «Preciso de vós.»

 

«Quem está aí?!» indagou David.

 

«O meu nome é Zerathull.» disse a voz. «Decerto que me conheceis.»

 

«Não vos preocupeis meu filho.» disse Artanis abraçando-o. «A minha luz irá proteger-vos.»

 

«Não que preciseis dessa protecção.» disse outra voz que parecia lembrar a morte. «O meu nome é Tassadar jovem príncipe.»

 

«E que me desejam os senhores das Trevas e da Morte?» perguntou David .

 

«Rashagall enlouqueceu.» disse Zerathull.

 

«As suas forças atacam os seus aliados.» disse Tassadar.

 

«E porque deverei acreditar nos deuses do Caos?» indagou bravamente David.

 

«É verdade meu filho.» disse Artanis com tristeza na voz. «O vosso reino é um dos poucos ainda não atingidos pelos exércitos de Rashagall.»

 

«Mas vossa irmã sempre foi a nossa maior protectora...» disse David ainda incrédulo.

 

«Assim foi meu jovem herói.» disse Artanis de lágrimas a correrem-lhe pela cara tornado-se pequenas pérolas ao tocar o chão. «Já perdi muitas das minhas forças e não conseguirei sozinha defender as que me restam.»

 

«Só nos resta uma solução.» disse Tassadar. «Uma união de forças contra Rashagall.»

 

«E a senhora Artanis concorda?» perguntou David.

 

«Sou forçada a concordar, mas interpus uma condição.» disse Artanis olhando David nos olhos.

 

«E que condição é essa?» perguntou David sentindo-se como uma criança pequena numa conversa de adultos.

 

«A condição é que sejais vós a comandar as forças desta união.» disse Zerathull. «Condição que aceito de bom grado pois sois respeitado por vossos inimigos.»

 

«Essa condição é também aceite de minha parte.» disse Tassadar.

 

«Que dizeis vós David de Balad Naran?» perguntou Zerathull.

 

«Eu liderar demónios e monstros com os quais lutei toda a minha vida contra as forças que tenho em maior estima.» disse David pensativo. «Que fazer? Deverei aceitar ou recusar? Se nem sequer ainda acredito no que me dizeis como podeis esperar que vos dê uma resposta assim? Eu não tenho como decidir...»

 

Artanis sorriu como uma mãe orgulhosa do seu filho.

 

«Dar-vos-ei mais tempo para decidir o que fazer. » disse Artanis.

 

«Mas não demoreis muito pois o tempo foge e Rashagall torna-se mais forte a todo o momento.» disse Tassadar dissipando-se nas trevas.

 

«Espero que vossa decisão seja a mais sábia.» disse Zerathulll enquanto as trevas desapareciam e o templo voltava ao normal.

 

«Sei que fareis o que será mais acertado, meu filho.» disse Artanis beijando as faces de David acordando-o do seu sonho.

 

David acordou sobressaltado, coberto de suor, mas tremendo como se os dedos da morte o tivessem tocado. A seu lado também sobressaltada estava a sua mulher, Catarina, a quem afectuosamente chamava Freira.

 

«David estás bem?» perguntou Freira a medo.

 

«Estou.» disse David recompondo-se um pouco. «Não te preocupes.»

 

«Voltaste a sonhar com Artanis?» disse Freira levantando-se e começando a vestir o seu vestido da manhã.

 

David continuou deitado olhando o perfil de sua mulher recortado na luz do sol da manhã. O seu amor por Freira não parara de crescer ainda, embora muitos dissessem que nunca iria durar.

 

«Sonhei com Artanis, mas também com Zerathull e Tassadar.» disse David levantando-se da cama.

 

«Os três ao mesmo tempo?» perguntou Freira parando de se vestir.

 

«Sim, os três.» disse David chamando as camareiras . «Preciso de me apressar e ir ver Lígia.»

 

As camareiras vieram e prepararam um banho e um desjejum para os seus senhores e uma hora depois David e Freira estavam a caminho do templo para falarem com a Oráculo de Balad Naran, a sacerdotisa Lígia.